Waking Life – Janaína Modesto

Filosofia Animada
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WAKING LIFE (Waking Life)

EUA, 2001 – 99 min

Animação

Diretor: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater

Elenco: Vozes na versão original: Wiley Wiggins, Kim Krizan, Ethan Hawke, Julie Delpy, Charles Gunning, Lisa Moore, Louis Mackey, Steven Prince, Caveh Zahedi, Adam Goldberg, Nicky Katt, David Martinez, Steven Soderbergh, Louis Black, Richard Linklater

Waking Life é uma obra visualmente deslumbrante e original, que oferece até alguns tratados intrigantes filosóficos sobre os princípios fundamentais da vida, enquanto sendo uma fonte constante de humor e espanto. Toma sua consciência, através de uma série de conversas e monólogos, através de diferentes filosofias. Mais ainda ao tomar as filmagens e colocá-las através de uma técnica de animação e o que se obtém é, ironicamente, considerando-se o título, uma excursão pelo sonho através da física, metafísica e delírios lunáticos em uma escala heróica. Surpreendentes em sua originalidade, deslumbrante, na sua erudição, ele enfrenta sem medo questões do livre-arbítrio, a identidade e a natureza da própria realidade sem nunca perder o seu sonho dentro de um sonho de qualidade. E isso é bom, porque seu tema central é se a vida “acordada” é de alguma maneira significativamente diferente do sonho, ou melhor, um sonho lúcido. Também não escorrega para os pântanos de pedantismo pretensioso. Linklater é sério, mas não insuportável. Humorado entrega a mensagem tão facilmente como uma proposição lógica.

A animação de Waking Life não segue a tradição das características da Disney. Utilizando da técnica de rotoscopia interpolada Linklater filmou todo o filme em live action, em seguida, transferiu digitalmente as imagens para computadores, onde o animador Bob Sabiston, supervisionou o processo de pós-produção em que 31 artistas, animaram de forma individual, geralmente dando duas caracteres para permitir uma variedade de estilos e interpretações. O resultado final é incoerente e sonhador, com imagens que são por vezes finamente detalhados e, por vezes, quase cru. Os fundos com freqüência vacilam, fazendo parecer que toda a ação ocorre a bordo de um navio balançando suavemente. Isso tudo é intencional, uma vez que a cada momento de Waking Life é para transpirar como se estivéssemos dentro de um sonho.

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Sem possuir um roteiro convencional, e mais provavelmente trabalhando apenas com notas e idéias, Linklater utiliza cerca de trinta personagens para explorar a questão: “Será que somos sonambulos quando estamos acordados ou estamos acordados quando estamos sonhando?”. Para encontrar as respostas ele utiliza o protagonista anônimo e silencioso interpretado por Wiley Wiggins, estrela de “Jovens, Loucos e Rebeldes“, um jovem que voltou à cidade onde anos atrás, uma menina brincando daqueles jogos de dobradura de papel (não sei o nome daquilo, mas é daquelas brincadeiras onde se diz um número e a pessoa move o papel com os dedos até chegar num ponto onde ao desdobrar o papel à uma resposta) desdobrou para mostrar-lhe as palavras “sonho é destino”. E a partir disso ele parece estar em um sonho, e queixa-se que, embora ele saiba que é um sonho, ele não pode/consegue despertar. Ele vagueia por pessoas e lugares. Encontrando diversas teorias, crenças e sanidades através de uma grande variedade de pessoas, incluindo Robert C. Solomon, filósofo da Universidade do Texas, Speed Levitch, um tagarela contador de histórias, o diretor Steven Soderbergh e os atores Ethan Hawke e Julie Delpy, que oferecem debates e diálogos em ambos os elementos abstratos e concretos da existência composta de uma série de discussões filosóficas que vão desde como a linguagem evoluiu para o papel da mídia na vida moderna, o livre arbítrio e a mecânica quântica para o sentido de identidade.

Linklater encontra inúmeras maneiras de filosofar sobre a existência e realidade. Não há o interesse sexual, não há violência, não há história: apenas conversas. Este é um filme com as pessoas falando sobre o significado da vida. E isto não é supostamente irônico, ou cômico. Você não rirá deles. Você não rirá com eles, também. Está presa na seriedade, estranha insidiosa do que está se desenrolando. Como forma de enriquecimento teórico, muitos pensadores e personalidades foram pesquisados como forma de referências, alguns dos nomes citados pelos personagens são: o cineasta Jean-Luc Godard, o cineasta Robert Bresson, o cineasta Louis Malle, crítico de cinema André Bazin, o escrito Philip K . Dick, o poeta Garcia Lorca, o escritor Thomas Mann, romancista DH Lawrence, o filósofo Friedrich Nietzsche, filósofo Soren Kierkegaard, droga guru Timothy Leary, escritor e existencialista Jean-Paul Sartre.

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Um filósofo diz a Wiley como o pós-modernismo, com seu ponto de vista da identidade construída por determinantes sócio-ideológicos, não cumpriu a humanidade e que o existencialismo, tão longe de ser uma afetação datada, é preferível a visão do mundo. Outro pensador, um biólogo molecular, postula uma teoria neo-darwinista da evolução de dois sistemas – um digital, da tecnologia da informação, o outro analógico, da biologia e da clonagem – o que levará à ênfase da guerra, ódio e sofrimento. Um prisioneiro furioso ruge sua sede de vingança de trás das grades. Um ativista dissidente de uma forma Ballardiana fala sobre o amor orgástico do homem no caos: antes de se banhar com gasolina e acender um fósforo ateando fogo no próprio corpo. Um dos discursos escritos sobre o cinema do crítico André Bazin sobre o momento “sagrado” do cinema, quando a câmera olha sobre a realidade: a realidade, inalterável inefável, como um próprio Deus.

Este é um filme deslumbrante e avassalador, uma verdadeira obra de arte única. É uma aberração intelectual que será lembrada por sua aproximação ao espírito filosófico da vida, é um filme que me deu muito prazer e alegria em assistir. É um fluxo livre de idéias baseados em um roteiro improvisado. Ele reflete a curiosidade do diretor que não tem medo de aprender e desbravar novos caminhos. O filme não está preocupado com o enredo ou sobre a tentativa de trazer respostas concretas, mas trazer idéias é a própria mensagem. Por si só, este filme está mais próximo da realidade do que a maioria dos filmes. Se há alguma crítica a Waking Life é que Linklater tem limitado o seu potencial, limitando o recurso a uma série de conversas. Isso também significa que às vezes você se encontra assim envolto pela imagem inebriante que é difícil de concentrar-se na lábia dos personagens. No entanto, parece grosseiro reclamar que havia muita coisa para absorver, quando o caso é geralmente o oposto. Waking Life, certamente não é para todos, mas, em grande parte devido à sua abordagem fresca e seus discursos infinitamente fascinantes, ele acaba ficando com você por muito tempo após as agitadas imagens animadas terem sumidas da tela. A resposta, suponho eu, é vê-lo novamente, e então, é que você vai perguntar Será que somos sonâmbulos quando estamos acordados ou estamos acordados quando estamos sonhando?

Dica: Não se preocupe, se tiver vontade de ler filosofia qdo o filme terminar.

Boa semana, até a próxima.

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Cinema – Closer: Perto Demais

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Closer – perto demais
janeiro de 2005, EUA, drama, romance, 98 min.
Diretor: Mike Nichols
Elenco: Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman, Clive Owen

Tão perto…
Olhei, rapidamente, o cartaz e entrei na sala, meio vazia. Gostei do título, o diretor, interessante, e fiquei curiosa com algumas, poucas, resenhas, que havia lido. E mais, um filme com Julia Roberts, em circuito alternativo, já era algo para se observar. Antes,  entretanto, caro leitor, de continuar a acompanhar essa mera divagação, que tal uma trilha sonora? Claro, a música-tema de Closer. Alguns segundos para acessar no youtube, The Blower´s Daughter, de Demien Rice.
Vale a pena! Sem dúvida, um dos pontos altos do filme.
Sem mais rodeios, com o som certo, vamos lá!
Talvez, seja possível traçar as impressões que Closer causa nos expectadores. Contudo, serei sucinta e tentarei expor as impressões causadas em mim (sim, sei que sou uma porcentagem ínfima dos que apreciaram a película de Nichols. Só que me perdoem, já que acho bem mais fácil falar do que é passível de me tocar, do que o que pode tocar ou não a outra pessoa. Um defeito? não sei. Como psicóloga poderia me dar o direito de enveredar pela interpretação alheia, mas sou uma aprendiz, ainda e, prefiro que a interpretação seja pessoal e intransferível, assim, encarem esse texto como uma versão do que o que filme pode suscitar, apenas isso).
A trama gira em torno das relações entre dois casais: uma stripper (Portman), um jornalista de obituários e futuro escritor frustrado (Law), um médico (Owen) e uma fotógrafa (Roberts, em uma atuação surpreendente, contida e sem as risadas histriônicas, que a caracterizam em outros trabalhos, aos fãs da diva, seguem minhas desculpas pela impressão).
O tema trata de um momento bem especial do amor: quando ele acaba e vai além, tenta elencar alguns por quês, bem dignos de reflexão.
Difícil não fazer uma analogia com o texto de Paulo Mendes Campo, “O amor acaba” (para os interessados http://www.releituras.com/i_eleonora_pmcampos.asp).
É, e o amor acaba. E acaba com o vigor tão irresistível, igual quando começa. E é indescritível a força que o abala, como a terceira lei de Newtow, da ação e reação. O término é tão solene e potente quanto o início.
Hoje, nas minhas parcas especulações psicológicas é fácil perceber a dificuldade de entrega das pessoas. Medo que não assusta a personagem Alice, de Natalie Portman, a que mais se permite aproximar desse sentimento.
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Talvez, estar perto demais cause (desculpem-me, de antemão, a criação do termo) erosfobia. O desespero de ter e perder um grande amor.
Meio clichê, mas observável em cem por cento dos casos: só se perde o que se tem. E, se não se tem, de fato, o compromisso afetivo não dá para perder.
Eu diria que Closer mostra a contra-mão dos filmes românticos, do séc. XXI.E das próprias relações afetivas que se estabeleceram, nesse caótico cenário pós-moderno. O recado do roteiro pode ser visto como um: é preciso viver até o fim, cada emoção que nos assola. Experimentar, experimentar e experimentar deixa um sabor amargo de incompletude; Todavia, se conseguimos nos aprofundar em nosso próprio sentir-o-mundo, no nosso sentir-o-outro, estar perto demais pode ser a experiência mais enriquecedora para um amadurecimento afetivo.
E lá vai o maior segredo de Closer (não, não vou contar o final, para quem ainda não assistiu): sentir a tal ponto suas próprias necessidades e valorizar, com  auto-estima, adequada (mesmo quando se escolhe ser estranho e estrangeiro) o próprio desejo que saber que o fim é, em momentos limítrofes, inevitável. Assim como o reomeço.
Dica (aos que não assistiram e podem querer se aventurar por essa história): os mais sensíveis preparem os lencinhos, lágrimas são inevitáveis. “Hello stranger”
Até a próxima…
Autor: Janaína Modesto