A Partida – O Filme por Janaína Modesto

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Uma ode á vida

Como ganhar algo em uma perda?  Pergunta que remete a um paradoxo, talvez. O filme “A Partida”, antes de tudo, me fez pensar sobre isso.

A história é simples. Um violoncelista, de Tóquio, metido em uma dívida para adquirir seu instrumento, se vê sem rumo, quando a orquestra para a qual tocava é dissolvida. Resolve, então, com a esposa, voltar para sua cidade natal. Lá o único trabalho que consegue é em uma empresa que prepara os mortos para… Opa. Peraí! Nesse ponto o que parecia simples ganha contornos de complexidade.

O personagem principal, Dai, troca a arte de concertista pela arte do acondicionamento: cuidados especiais no corpo do finado, como  maquiagem, roupas, purificação, antes do cortejo fúnebre. Acho que é o momento certo para colocar uma música. Youtube a postos…

Como pode a morte transformar a vida (sim, é uma afirmação enfática). Como o perder tem um simbolismo de ganhar (mais ênfase). Partir é um outro chegar. Uma pétala de rosa que cai vira adubo para outra flor. Nas separações, nas idas sem volta, nos beijos que terminam, nas mãos que se largam, há o reverso. Outros amores, uma muda nova de planta, chegadas, mãos que se conhecem, encontros, perdão.

Nesses devaneios, tão meus, “A Partida” trouxe a vasta emoção de um otimismo renovador.

A cada ritual de acondicionamento, em que as mãos de Dai, delicadamente,  tratam a pele, os pelos, a roupa dos mortos, o “fim” se aproxima de uma poesia lúdica e, em alguns momentos, do hilário.

Será uma heresia rir da morte? Ou, um arranjo mais lúcido de encarar o medo com a sabedoria, necessária, para todas as fases da nossa passagem pelo mundo.

Deixar de ser criança é uma forma de morrer, ou de matar as condições infantis e ganhar status e maturidade, assim como deixar de ser adolescente, deixar de ser jovem, deixar de ser de meia-idade…  Sempre com a mesma dinâmica de que o perder em si, significa também ter algo de volta, que acrescenta que faz evoluir e que faz ampliar a consciência sobre o que se é e o que se quer.

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A morte atingirá a todos. Essa é (pelo menos, enquanto a engenharia genética, assim o permitir) a regra, sem exceção, do ser humano.

Enfrentar a finitude, que ronda a nossa condição, faz vomitar, traz preconceito, acaba com amores. Que o diga Dai, que ao assumir seu talento para lidar com os cadáveres e transformá-los em imagens de vida, se vê discriminado, sozinho. Sim, isso mesmo, transmutar imagens mortas em imagens vivas! (mas, meu leitor, sem muitos detalhes, para não estragar nenhum prazer, que assistir a esse filme traz).

No filme, o roteiro tenta alinhavar ligações entre o fim e o começo de cada coisa e de todas as coisas, com uma redenção, plenamente, possível. Sob esse aspecto é possível desculpar, ou pedir desculpas.

Um cenário onde até as pedras podem ser, alquimicamente ( neologismo, será?), transformadas em delicadas declarações de amor, da vida para a morte e da morte para a vida. Momento de renovar o viver, seja com pedras lisas, pequenas ou pedras rugosas, grandes. Elementos, culturalmente, considerados obstáculos colorem-se com um simbolismo de nascimento.

Assim como as flores de cactos são resistentes a toda aridez do solo, propício ao vegetal, e  insistem em estar desabrochadas, como um desafio à falta de água, de vento, de polinização.

Imagens que são como uma ode á vida, que insiste, incide  instiga, instrumentaliza.

Dica: ao assistir “A partida” a sensação é de bipolaridade. Rir e chorar serão de uma alternância, esperada. Não tenha medo, permita-se sentir.

Esse devaneio de hoje tem dono… Para você que me inspira e que me faz sentir que a vida pode começar a cada segundo. Com meu amor, carinho, admiração. Obrigada por me mostrar coisas  tão  lindas como Okuribito. Ah, ele tem nome, Alexandre…

Ah, amiga Flávia, para você que chorou junto comigo, em algumas cenas, também merece minha dedicatória.