Uma tragédia social…

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Hoje, não quero falar sobre um filme, em específico. Mas, de uma situação que, pela repercussão, pelo roteiro, pelo tom trágico, teria tudo para estar em alguma grande tela de cinema.

Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini , 13 anos, estudante, filho de dois policiais militares, portador de um doença degenerativa do pulmão é o protagonista dessa trama.

Um menino, filho único, que em tão tenra idade,  já podia empunhar armas, dirigir carros, ir a estandes de tiros. Um menino que vivia um mundo paralelo, vidrado, por horas, em um jogo, que lhe rendia fantasias e fantasias, para uma vida já cronificada pela morte.

Essa tal morte anunciada contaminava toda a família que, provavelmente, negava a essa pobre criança o direito ao limite e a viver cada coisa, em seu tempo.

Nada do que falei e falarei sobre esse roteiro tem alguma ligação direta com o que houve. Tudo é mera especulação, e não podia ser diferente. Estou em um campo minado de ilações e hipóteses e, com as últimas novidades, que li, em alguns informativos, optei, em uma conduta pessoal e intransferível, pela ideia, de que, sim, Marcelinho matou a família e foi para a escola.

Um ponto que me assusta, além do caso em si, é ver tanta gente falando sobre isso, como mais um fato banal, em qualquer lugar, rindo, às vezes, fazendo apostas sobre se o adolescente foi capaz ou não de atirar contra toda a família.

Outro assombro é  enumerar a quantidade de especialistas, em áreas diversas, irem à TV dar palpites e palpites, só para manter a polêmica e a falsa-impressão de que são apenas críticos de um acaso de uma grande produção cinematográfica e não participantes ativos de um processo cultural, social e psicológico que pode conduzir a tragédias como essa.

Só que talvez, na neurose border-line que sufoca o mundo, realmente, seja uma obra de ficção. Uma ficção tão nonsense, construída pela vida, que é difícil tratá-la com familiaridade. Nós, seres ocidentais, cristãos, na maioria, aprendemos que Jesus tem as portas abertas do céu para todas as criancinhas. Assim, a natureza infantil é de uma bondade incontestável. Entretanto, na minha mente inquieta, vem o crucial: o que é incontestável?

Imaginem, quando Freud, no final do século XIX, argumentou sobre a sexualidade infantil, dizendo que crianças sentem prazer sexual e tem zonas erógenas que são libidinizadas, em fases do crescimento psico-sexual, como o oral, anal, fálico. Um filme de terror para o médico vienense, que começava a traçar as diretrizes da psicanálise, se abateu sobre tudo o que escrevia e provava por intermédio de estudos, pesquisas e consultas.

Mergulhando em outras águas, agora, recordei de uma aula de sociologia, com o grande Mestre Nivaldo (aluno de outro grande mestre Florestan Fernandes), durante a faculdade de Psicologia. Ele disse que os artistas e suas concepções revelam-se como os profetas modernos. Poetas, cineastas, pintores são visionários e só depois deles é que a filosofia começa seus discursos e a ciência, vem, ainda, mais tarde, com seu aporte, e redige novos caminhos para a humanidade baseada em algo que pode ter sua raiz em um verso, uma cena, um uso de luz.

Com esse pensamento, ao defrontar-me com o caso da Brasilândia, não pude deixar de lembrar também de um filme . O diretor  Michael Haneke estava inspiradíssimo ao rodar “A Fita Branca”. A película tem sua história desenvolvida em um vilarejo alemão pré-Primeira Guerra Mundial. Coisas estranhas acontecem no lugar, principalmente quando a ação envolve crianças. Lindas crianças arianas, cúmplices e martirizadas, tanto pela ideia de superioridade, quanto pelos castigos impingidos, nos momentos considerados como faltas.

A fita branca do título é usada como um símbolo de pureza . Fitas com essa cor são colocadas em meninas que não estão, em minuto algum, acima do bem e do mal, para que se lembrem dos deveres a ser cumpridos. Cabecinhas que, de alguma forma, são terrenos férteis para a futura eclosão da ideologia nazista nas terras da Alemanha, que ainda passaria pela Primeira Grande Guerra.

Parece sintomático que a sociedade reflita o comportamento de suas crianças.  Elas são e sempre serão o futuro, dentro de pensamentos formalizados. Se assim, imaginarmos, caro leitor, como é ainda mais assustador o caso de Marcelinho. Em que mundo, vivemos? Um mundo, onde meninos adoentados, super protegidos, sem limites, com poucas regras, querem levar para sua morte anunciada todos os seus? E que agem com requintes de perspicácia, tais, que profissionais da área psiquiátrica e psicológica se veem sem chão para analisar o que houve de fato, na cabeça do pequeno.

Eu não quero me arriscar a um palpite. Posso dizer no que não acredito em muitas coisas. Não acredito que ele fosse um psicopata, o suicídio não combinaria com esse tipo psicológico. Perverso, aos 13 anos? Não, não estou pronta para acreditar nisso.  Um surto psicótico, onde uma voz ou um delírio ordenaria a chacina? Esse ponto pode levar a pensar se o excesso de poder para um menino de 13 anos denegriria  esse narcisismo a ponto de fazê-lo voltar ao egocentrismo da “sua majestade, o bebê”,  e induzi-lo a querer que a morte não fosse só a sua realidade, mas também a da família toda.Uma massa disforme destinada ao mesmo fim? Todos com a mesma pulsão de morte, sob a égide de Thanatos, sem desejo e sem falta? Lutando contra o que não há mais luta?

Tantas perguntas, sem contar o fato de que tudo pode ter sido forjado por policiais militares, que queriam se vingar da mãe de Marcelo, porque ela haveria denunciado uma quadrilha especializada em explodir caixas eletrônicas. Militares, esses que induziram até amiguinhos do adolescente a dizer que ouviram a confissão da morte dos pais dele, só que houve uma descrença nessa possibilidade. Epa, aí daria outro filme.

Vou pular toda a parte que tinha preparado sobre a cobertura sensacionalista do caso, até porque estou usando isso para a analogia fílmica. Mas que toda a cobertura foi um circo, foi e já não é mais novidade nos anais do jornalismo policial brasileiro, essa tristeza toda.

Uma confissão, em meio às lágrimas, eu queria muito que Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini não fosse o autor da morte de sua família. Outra confissão mais arriscada: eu acredito que quando crianças começam a se comportar de forma obscura, como homicidas, suicidas, padrões que fogem a qualquer tipo de entendimento, a sociedade está apodrecida e outras tragédias virão (Vide a Fita Branca de Haneke).

Não acho precipitado dizer que vivemos em um ponto de mutação, um divisor de águas para alterações drásticas e perigosas, no individual e no coletivo. A sociedade neurótica de Freud está dando lugar a um mundo psicótico, desagregado, desorientado.

Um termômetro é o fato de que todo mundo já se acostumou com notícias de corrupção e assassinatos incompreensíveis vindo de quem deveria defender a população. Será que é o momento de um outro tipo de acomodação: o de ver, diariamente notícias de crianças assassinas, suicidas, estupradoras, perversas? Começa um novo tempo para os estudos da psicologia humana.

Sem dicas, hoje. A não ser, para  pais e mães: educar é amar e limitar. E se acharem válido deem uma assistida em “A fita branca”, excelente filme.

Semana que vem, tem filme na área. Até lá.

 Autor: Janaína Modesto

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