Corra Lola, corra. – Por Janaína Modesto

lola511

Por um segundo…

20 minutos para mudar um destino. Quantas vezes, cada um de nós, não sentimos que já não temos mais tempo para resolver as nossas vidas, ou questões cruciais para que possamos continuar no caminho menos tenso.

Lola, a personagem principal, desse filme que se tornou cult, no final dos anos 90, corre muito (e, literalmente) para usar um exíguo espaço de tempo como agente de transformação de uma vida inteira.

No filme, Lola precisa ajudar o namorado a devolver uma grana preta para um mafioso. O dinheiro, perdido, em um trem do metrô, caiu nas mãos de um mendigo, que colecionava sacolas plásticas.

Um retrato da modernidade. Um mundo, onde o pouco é muito e muito será sempre muito pouco. Mazelas sem solução, que se confundem, equivocadamente, com um falso bem-estar. Dentro de toda a subversão proposta pelo diretor, nos vemos torcendo, desesperadamente, para que a protagonista consiga ajudar a concretização de uma contravenção. Mas o que é mesmo uma contravenção, em um mundo onde traição e desamor são panos de fundo para uma sociedade engessada por ideias machistas, racistas, homofóbica?

runlolarun-5

E na correria de Lola, há descobertas incríveis. Enumerando, para simplificar, 3 descobertas principais: não dá para perder tempo (nem para si e nem para os outros), só se pode errar 2 vezes (o mesmo erro), e até para a morte encontra-se uma forma de reversão.

Analisando a perda de tempo, a heroína tem 3 chances para conseguir resolver o problema e percebe que um segundo perdido pode mudar todo o direcionamento das coisas. E não só na vida dela. Todas as pessoas, com as quais ela cruza tem suas vidas modificadas, conforme o contexto da passagem de Lola e a reação delas com o encontro.

Errar talvez seja a principal forma de aprendizado. Errar duas vezes, na mesma situação pode ser (eufemizando) falta de inteligência, mesmo. O ideal é observar as situações e mudar o rumo, para que o tempo esteja a favor e não contra a solução.  Adiantar o caminho pode significar aprender a pular um degrau a mais de escada, evitar irritar um cão bravio, fugir de um acidente de carros, pegar carona em uma ambulância e tentar salvar a vida de um estranho, ou ainda, resolver toda uma situação mal explicada com uma mãe alienada e um pai ausente. Ufa, quanto coisa para resolver em parcos 20 minutos, hein Lola. Quanta coisa para resolver em uma vida, hein? Quantos minutos podem durar uma dor instantânea? Ninguém me convence que qualquer dor possa ser instantânea. Nem a física, muito menos a da alma.

Pois é, ia esquecendo, e a música, entra agora: um pouco de silêncio, antes de continuar e falar sobre a morte.

Um clássico do Depeche Mode. Não, não está na trilha sonora de Corra, Lola, Corra, mas caberia bem, sem dúvida. Um Techno clássico, que remete bem à linguagem videoclipe, pós-mtv, imprimida, intimamente ao filme. Então, um pouco antes do término, enjoy the silence.

Com licença poética, como já li umas vezes (no plural, mesmo), a morte, em Corra, Lola, Corra simboliza muito mais do que o romper com tudo e partir. Pelo contrário. De forma inteligente e sutil, o diretor nos leva a outro mundo possível. Uma nova chance, uma outra possibilidade. Morte pode ser romper, mas romper com aquilo que não deu certo. Com o incompatível, com o que foge da nossa vontade. Uma nova tentativa pode surgir do que não deu certo. Nada de absolutismos, vãos.

Nem na vida, nem na morte, existem certezas irreparáveis. Em certo sentido, para nós psicólogos, sonhar com a morte é sonhar com o desejo de ser diferente. O desejo de continuar desejando. E o que somos nós, sem desejar? Cadáveres adiados? (Eu também li isso em Pessoa, o Fernando, mesmo)

Dica: Prenda-se à poltrona, quando for assistir Corra, Lola, Corra. Dá uma vontade danada de sair correndo, junto com ela.

Corra, Lola, Corra

Comédia, Alemanha, 1998

Direção: Tom Tykwer

Elenco: Armin Rohde, Franka Potente, Herbert Knaup, Joacim Król, Moritz Bleibtreu, Nina Petri

É isso. Até a próxima.

Janaína Modesto

A confiança é um ato de fé, e esta dispensa raciocínio.

Carlos Drummond de Andrade

“De perto ninguém é normal…”
A loucura não está nos homens, mas entre eles.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s